Borgonhas Grand Cru 2008: Encontro de Clos (Vougeot, des Lambrays, de Tart e de la Roche)

Data

Quarteto de “Clos” Grands Crus da Borgonha: 
de Vougeot, de la Roche, des Lambrays e de Tart

A Côte de Nuits abriga 25 dos 26 vinhedos Grands Crus (o Corton é o único que fica na Côte de Beaune) onde se produzem vinhos tintos na Borgonha. Dentre eles, cinco desses vinhedos possuem atrelados a seu nome a palavra “Clos”, uma contração da palavra “closure” (clausura, em português). 
O significado prático do termo remete a um vinhedo que, por sua alta qualidade para a produção de vinhos, foi demarcado e murado séculos atrás pelos monges cistercienses que elaboravam vinhos naquela região. Como tudo na Borgonha é meio complexo, vale lembrar que existem vários vinhedos murados que não são classificados como Grand Cru e que alguns dos melhores Grands Crus o são, como é o caso do célebre Romanée-Conti (que talvez tenha o muro mais fotografado do mundo do vinho). 
Decidimos reunir dentro de um painel de degustação de tintos Grands Crus da Borgonha, quatro vinhos desses cinco “Clos” (apenas o Clos Saint-Denis não teve representante) para tentar capturar e entender as sutis diferenças e as peculiares de cada um deles ao longo de sua trajetória vinícola.

Domaine Bertagna Clos de Vougeot Grand Cru 2008

Começamos a degustação pelo Clos de Vougeot, único dos quatro que não fica na comuna de Morey-St-Denis e que sozinho se configura no menor município (Vougeot) da Côte d’Or. Ao mesmo tempo ele é o maior dos Grands Crus em extensão territorial, com 50 hectares de vinhedos distribuídos por uma miríade de 82 proprietários, muitas vezes donos de apenas algumas fileiras de vinhas.
Para complicar a análise, esse vinhedo possui seis tipos de solo diferentes (as parcelas mais altas são consideradas as melhores) e há uma grande distinção de qualidade entre seus produtores. Esse problema não existia até a revolução francesa, na Idade Média, um blend entre uvas de todas as partes do vinhedo era considerado ideal para fazer o melhor vinho do Clos de Vougeot.
O vinho que degustamos foi produzido pelo Domaine Bertagna com vinhas localizadas bem no centro do Clos, numa área de apenas 0,31 hectare, mas de alta densidade de plantas por hectare e cuidadosamente trabalhado de maneira orgânica (algo complicado no meio de tantos vizinhos) pelo produtor.
Apesar de ter sido degustado com quase sete anos de vida, esse Clos de Vougeot estava bastante jovem, com notas frutadas dominando os aromas e denotando ainda a passagem pelo carvalho novo onde amadureceu. Apesar disso, no paladar ele revelou uma estrutura tânica vigorosa, equilibrada por uma acidez muito característica, com um final de boca sedoso e prolongado, prometendo um grande futuro pela frente.     
Michel Magnien Clos de la Roche Grand Cru 2008
Situado na fronteira com a comuna de Gevrey-Chambertin, o Clos de la Roche é o maior vinhedo Grand Cru de Morey-St-Denis, com uma área de 13,41 hectares. Seu nome faz alusão ao solo repleto de rochas calcárias decompostas e grandes pedregulhos, que conferem um caráter austero e profundo aos vinhos.
O Clos de la Roche degustado foi elaborado pelo Domaine Michel Magnien e mostrou-se realmente bastante fechado nos aromas, liberando além de frutas vermelhas bem maduras, um pouco de baunilha, terra úmida e defumados. No paladar mostrou muita profundidade, mas carecendo de desenvolver maior complexidade gustativa. Equilibrado, macio, mas como um 2009 bebido tempos atrás, ainda “sem sal”.  

Taupenot-Merme Clos des Lambrays Grand Cru 2008
O Clos des Lambrays é mais um dos pequenos vinhedos Grand Cru murados (apenas 8,84 hectares) presentes na comuna de Morey-St-Denis. Ele guarda uma grande curiosidade: por causa de míseros 420 m2 pertencentes a um pequeno e resistente produtor local (Taupenot-Merme), o proprietário majoritário atual não pode ostentar no rótulo o pomposo título “Monopole”, indicando que ele pertence a um único dono. Isso pode ser considerado algo bastante frustante, especialmente quando sabemos que esse proprietário é ninguém menos que o LVMH, o maior grupo de produtos de luxo do mundo.
Pois foi justamente desse minúsculo vinhedo de 420 m2 (do tamanho de um lote urbano padrão) que veio o Clos des Lambrays que degustamos nesse painel. Um vinho que mostrou logo de cara a que veio: riquíssimo nos aromas típicos de sous bois, defumados e um delicioso traço floral. No palato, ele não ficou atrás, exibindo múltiplas nuances gustativas, com excelente estrutura tânica, acidez perfeita e integração total da leve passagem pela madeira. Final longo, sedoso e que deixa aquela sensação de que não se poderia esperar mais nada de um vinho dessa região (mas o próximo vinho vai mostrar que isso é possível…).   

Clos de Tart Grand Cru 2008
Situado entre outros dois Grands Crus (Bonnes-Mares e Clos des Lambrays), o Clos de Tart possui 7,53 hectares e é o único dos Grands Crus que ostenta o título “Monopole” mencionado anteriormente e que nunca sofreu nenhum fracionamento até os dias de hoje.
O Clos de Tart degustado no painel foi uma das pouco mais de 18 mil garrafas lançadas em 2008 e poderia ser resumido como a quintessência da elegância da casta Pinot Noir na Borgonha. Um vinho absolutamente inebriante e equilibrado que, mesmo tendo passado 17 meses em barricas de carvalho francês e ser muito jovem, conseguiu nos encantar em todos os quesitos.
Repleto de camadas aromáticas (flores, frutas vermelhas maduras, fumaça, cedro) e uma pureza no paladar que poucas vezes presenciei, o Clos de Tart esbanja o máximo de potência que uma Pinot Noir pode ter sem perder a classe e um frescor impressionante. Conforme era esperado, apenas o quesito complexidade ficou em segundo plano, já que seu apogeu só será alcançado dentro de 10 ou 15 anos à frente. Um vinho inesquecível, que ocupa um patamar superior em qualquer parâmetro que quisermos utilizar. Lindo!

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