Quinta da Bacalhôa: vertical com 8 safras comprova a elevada qualidade deste "corte bordalês" de Portugal!

Data

Safras 1995, 1999, 2003, 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010
Certamente o mais célebre vinho português elaborado com as castas bordalesas Cabernet Sauvignon e Merlot, o Quinta da Bacalhôa é um rótulo de origem relativamente recente, cuja primeira safra foi lançada apenas em 1979. Se considerarmos que a quinta que lhe empresta o nome possui registros de produção de vinhos desde o século XIV, o Quinta da Bacalhôa está apenas engatinhando.
A criação deste vinho teve nítida influência no sucesso obtido pelos “supertoscanos”, os vinhos italianos que no início da década de 1970 romperam a tradição local e passaram a utilizar castas internacionais no blend de seus principais vinhos. Na vizinha Espanha, o renomado Vega Sicilia já usava parcelas de CS, Merlot e até de Malbec em seu corte desde o início de sua produção (1915). Outro rótulo espanhol (Penedès) surgido na mesma época dos italianos foi o Mas La Plana (100% CS), vinho que desde então, sempre se destacou com um dos melhores do país. Finalmente, devido ao fato da propriedade pertencer a uma rica família de americanos, o “sopro” pela mudança não encontrou nenhuma resistência.
Assim, a partir de um vinhedo plantado em 1974, com vinhas de CS (90%) e Merlot (10%), num terroir especialmente selecionado da Península de Setúbal, surge cinco anos depois, o primeiro Quinta da Bacalhôa, que de acordo com o enólogo Vasco Penha Garcia, continua a ser elaborado dentro dos meus preceitos até a safra atual (ainda que tenha havido um nítido incremento em teor alcoólico, subindo dos usuais 12,5% para até 14,5% na safra 2010).    
Atendendo um convite da importadora Portuscale, tive o prazer de apreciar uma vertical com oito safras deste emblemático tinto português (1995, 1999, 2003, 2006, 2007, 2008, 2009 e 2010) para conhecer melhor sua performance no decorrer dos anos e confirmar seu grande potencial de guarda.
Quinta da Bacalhôa Branco 2010
Antes de iniciarmos a apreciação dos tintos, provamos a versão branca do Quinta da Bacalhôa (safra 2010), que seguindo a tradição de seu irmão tinto, é elaborado com um corte “estrangeiro” de Sémillon, Alvarinho e Sauvignon Blanc. Um vinho bastante fresco, aromático e equilibrado, com perfil moderno e bastante agradável.
Enólogo Vasco Penha Garcia
Em seguida, o enólogo Vasco Garcia discorreu sobre a longa e rica história desta magnífica propriedade e de seus vinhos, que inclusive já esteve nas mãos dos reis de Portugal, pertencendo atualmente ao grupo Bacalhôa Vinhos de Portugal, que reúne um importante conjunto de vinícolas espalhadas pelas zonas produtoras mais importantes do país.
Da esquerda para a direita: Quinta da Bacalhôa 1995, 1999, 2003 e 2006
Impressões de degustação:
1995 – Apesar de uma certa turbidez que atrapalhou um pouco sua apreciação visual, deixou transparecer aquela linda coloração vermelho tijolo que um corte bordalês evoluído costuma oferecer. Notas de couro, ervas e tabaco dominaram o olfato. Paladar refinado, complexo, acidez bem dosada escoltando taninos intensos mas bem polidos pelo tempo. Muito bom!
1999 – Vinho no apogeu, perfeitamente equilibrado, com aromas típicos de couro, cedro, tabaco e ervas finas (tomilho). Boca sem arestas, com ótimo corpo, taninos elegantes, acidez ideal e final bastante longevo. Excelente!
2003 – Como a maioria dos vinhos europeus desta safra, pagou o preço do calor excessivo, gerando vinhos mais alcoólicos e parecendo mais evoluído do que se deveria esperar. Notas de pimenta preta, baunilha e cedro dominam o olfato. Paladar carnudo, ligeiramente adocicado e espesso, com taninos bem maduros, mas carecendo de maior acidez para dar harmonia ao vinho. Chegou íntegro aos 10 anos, mas não deverá melhorar com a guarda. Bom para beber já!
2006 – Visual rubi escuro e denso. Essa safra continua a demonstrar os efeitos do elevado teor de álcool dos vinhos (14,2% neste 2006) de safras mais recentes, com aromas dominantes de frutas negras maduras (ameixas), pimenta negra e toques de baunilha e hortelã. Na boca, os taninos macios (e quentes) foram bem ajustados pela acidez e pela ótima integração com a madeira, tornando seu conjunto bastante prazeroso. Final sedoso e persistente, nitidamente com ares modernos e muito versátil. Meu predileto entre as safras mais recentes!
2007 – Uma safra de grande prestígio cujo reflexo no vinho pode ser sentido de imediato: necessita de longa guarda para sair de sua “jaula” de taninos poderosos (mas ainda duros) e integrar devidamente a forte presença de carvalho novo, evidenciada pelas notas de baunilha e cedro que dominaram o olfato. Paladar rico, ostensivo, mas que precisa ser amaciado pelo tempo. Um portento que poderá recompensar os pacientes enófilos capazes de guardá-lo por, pelo menos, mais uma década. Um vinho para o futuro!

2008, 2009 e 2010 – Optei por agrupá-los já que demonstraram características muito parelhas. Coloração rubi escura e concentrada, quase intransponível à luz, aromas primários de frutas negras, pimenta e notas levemente mentoladas. Do ponto de vista gustativo, todos eles necessitam de um bom tempo de guarda para amansar os potentes taninos, o elevado teor de álcool e atenuar a presença marcante do carvalho novo. Dentro do conjunto, o 2009 parecer ser o mais estruturado dos três, com fruta muito madura, taninos efusivos e ótima acidez. Um trio de ótima qualidade que, seguindo o caminho do 2007, demanda paciência aos que desejarem bebê-los em seu melhor momento.
Como sempre (ou quase) acontece em degustações verticais como essa, um grande aprendizado é extraído das taças, seja pela observação das características de cada safra (especialmente quando o vinho não passou por grandes transformações ao longo dos anos), seja pela compreensão de como ele evolui através dos anos. 
No caso desta vertical de Quinta da Bacalhôa, percebeu-se com clareza o peso das mudanças climáticas e também do momento escolhido para a colheita das uvas, que veio elevando gradativamente com o passar dos anos, o percentual de álcool nos vinhos (aliás, uma tendência mundial). Por outro lado, essas mudanças, propositais ou involuntárias, não abalaram em nada o perfil e a qualidade deste vinho que ao longo de pouco mais de 30 safras, sempre apresentou uma regularidade qualitativa de alto nível. 
  

Outros Artigos

Olá, fique mais um pouco. Sou seu Wine Hunter.

Se não encontrou o que realmente procurava, deixe que eu faça isso por você.

Quero te propor a melhor experiência em nosso Marketplace de vinhos!