Bordeaux 2003: Cheval Blanc, Angelus, Pavie, Léoville Las Cases, Palmer e La Mission Haut-Brion, grandes vinhos demonstram o preço pago pela precocidade da safra!

Data

Grandes vinhos das margens esquerda e direita de Bordeaux safra 2003
Completando agora uma década daquela que para muitos especialistas foi a safra mais quente da história recente de Bordeaux, o ano de 2003 dividiu opiniões desde que os primeiros vinhos foram testados pelos críticos nas provas de barricas. O exemplo notório destas avaliações contrastantes foi o badalado Château Pavie, um Saint-Emilion sempre “abençoado” por Robert Parker (obteve 98+ em 2003), mas que recebeu míseros 12 pontos (na escala de 20) da inglesa Jancis Robinson. 
O painel proposto para esta degustação de Bordeaux 2003 reuniu alguns dos melhores châteaux das margens esquerda e direita, justamente para avaliar o comportamento dos vinhos desta polêmica e atípica safra, dez anos depois de sua elaboração. 
Divididos em dois grupos de três, foram avaliados inicialmente os vinhos da margem direita, todos eles de Saint-Emilion e classificados com 1er Grand Cru Classé A (Cheval Blanc, Angelus e Pavie), seguidos de outros três vinhos da margem esquerda das apelações de St-Julien (Léoville Las Cases), Margaux (Palmer) e La Mission Haut-Brion (Pessac-Léognan). 
  
Château Cheval Blanc 2003 (WS96/RP89)
Corroborando a precocidade da safra, as uvas Merlot e Cabernet Franc foram colhidas nas duas primeiras semanas do mês de setembro, algo que não acontecia desde o longínquo ano de 1893. 
Utilizando uma proporção mais alta de Cabernet Franc (56%) que o habitual, complementada pela Merlot (44%), o vinho exibiu um estilo elegante e sutil, com aromas bastante intensos de frutas negras, baunilha e cedro. Na boca, um paladar delicado, com taninos macios e acidez bem equilibrada, exibindo ainda uma discreta presença da madeira em fase final de integração com o vinho. Confirmando o esperado, o vinho já está dentro de seu patamar ideal de consumo, podendo evoluir um pouco mais ao longo de uns poucos anos.
Avaliação: 93E
Château Angelus 2003 (WS94/RP93)
Hubert de Bouard, proprietário do château, pode se orgulhar de ter produzido um dos mais brilhantes vinhos desta safra que tive a chance de degustar. 
Blend feito com 58% Cabernet Franc e 42% Merlot (praticamente o mesmo do Cheval Blanc) e amadurecido por 18 meses em barricas novas de carvalho francês, este Angelus 2003 pareceu ser um exemplar que merece mais alguns anos de guarda antes de se revelar por inteiro. Aromas marcantes de tabaco, cedro e defumado se mesclaram maravilhosamente com as frutas negras e um toque de alcaçuz. O grande diferencial se deu no palato, onde a maciez dos taninos bem maduros foi “desafiada” por uma vigorosa acidez, trazendo uma vivacidade única para o vinho. Para arrematar, um fim de boca longo, carnudo e de grande persistência, prenunciava que ele seria o vinho da noite (e foi…).
Avaliação: 97D
Château Pavie 2003 (WS96/RP98+) 
Desde 1998 nas mãos de Gerard Perse, esse château com 92 hectares de vinhas dispostas em perfeita orientação sul num solo privilegiado (calcário na encosta superior, argila e calcário no meio, e areia e argila na base), chamou a atenção de todos pelas ótimas avaliações recebidas de Robert Parker. Em 2003, apesar da excentricidade do clima, não foi diferente, Parker cravou um 98+, mas encontrou forte reação de críticos como Jancis Robinson (que concedeu um sonoro 12 em 20) e Michael Schuster (que deu uma nota negativa de “-3” para o vinho!). 
Elaborado com um blend de 70% Merlot, 20% Cabernet Franc e 10% Cabernet Sauvignon, o Pavie 2003 amadureceu por longos 28 meses em barricas novas de carvalho francês. Já no primeiro contato com o vinho dá para entender a implicância dos críticos: estilo intenso de vinhos do Novo Mundo, concentrado  e adocicado, quase como um Porto (palavras de Jancis…), dominado por aromas licorosos e lineares de frutas negras. Na boca, a carência de acidez era nítida para quem espera um sofisticado e complexo exemplar de Saint-Emilion, restando apenas taninos potentes e doces para agradar um paladar moderno e sem refinamento. Final de boca volumoso, macio, muito longo, mas sem nenhuma atração. A pior relação preço x qualidade que já vi em Bordeaux até hoje (pior que eu tenho outra garrafa na adega…).
Avaliação: 86E  
Château Léoville Las Cases 2003 (WS97/RP93+) 
Indiscutivelmente o melhor vinho de St-Julien, o Léoville Las Cases, com seus 98 hectares de vinhedos privilegiados, sempre consegue tirar “vinho de pedra” e produzir grandes vinhos. O 2003, apesar das ótimas avaliações, nunca vai atingir a qualidade de vintages recentes como 1982, 1986, 1990, 1996 ou 2000, mas demonstrou um patamar digno de seu renome. 
Produzido com um corte de 70,2% Cabernet Sauvignon, 17,2% Merlot e 12,6% Cabernet Franc, amadurecido por 18 meses em barricas de carvalho francês (60% novas), este Las Cases ofereceu ótima tipicidade, com aromas ricos de frutas negras, pimenta do reino, ervas e um toque de couro. Na boca, a já esperada potência tânica encontrou uma dose de acidez à altura de sua força, conferindo o frescor que tanto parece fazer falta em outros vinhos da safra. Mesmo um pouco fora de seu perfil clássico, o meu châteaux predileto não deixou a “taça cair” e fez um ótimo vinho.
Avaliação: 94D
  
Château Palmer 2003 (WS90/RP89)
Eis um vinho que foi seriamente prejudicado pelo clima desta safra. O Palmer, que normalmente tem um percentual acima da média de Merlot, se comparado com outros tintos do Médoc valeu-se de um corte com 68% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot (normalmente seria o dobro) e 12% Petit Verdot,  para ajustar da melhor maneira possível o vinho, amadurecendo-o por 18 meses em barricas de carvalho francês (70% novas).
O vinho degustado ofereceu bons aromas de frutas menos maduras e confitadas que os anteriores, com um caráter mais floral e notas herbáceas e de torrefação. No palato, o bom equilíbrio de taninos e acidez foi um pouco prejudicado por certo amargor residual (provavelmente da madeira), mas que deve desaparecer com o tempo. este talvez tenha sido o único vinho que possa melhorar significativamente com a guarda, ainda que não alcance um patamar muito mais elevado.
Avaliação: 88E
Château La Mission Haut-Brion 2003 (WS94/RP93)
A propriedade que divide com o Haut-Brion as honras de serem os melhores tintos de Pessac-Léognan  fez um belo trabalho na safra. Produzido com um corte de 52% Cabernet Sauvignon, 39% Merlot e 9% Cabernet Franc, amadurecido por 18 meses em barricas de carvalho francês (80% novas), o La Mission trouxe aromas deliciosos de cassis, groselha, terra úmida e defumação. Na boca, sua riqueza tânica sobrepujou um pouco a esforçada acidez, deixando seu sabor um pouco mais adocicado que o desejável (mas muito longe do estágio do Pavie), sem que isso comprometesse o balanço final de um paladar rico, sedoso e muito persistente. Prontissimo para beber!
Avaliação: 92D
O balanço final da degustação foi praticamente unânime entre os 11 degustadores presentes na ocasião: os vinhos desta safra (2003) em Bordeaux realmente fogem do estereótipo da região, no que diz respeito à sua capacidade habitual de ganhar grande complexidade entre os 20/25 anos de idade, algo que eles parecem não possuir, já atingindo um precoce apogeu aos 10 anos de vida. 
Porém, isso não significa que eles não sejam muito bons de beber, especialmente os vinhos que conseguiram, através de um corte de uvas inteligente, garantir o necessário frescor capaz de equilibrar o vigor tânico adicional que o clima extremamente quente lhes conferiu. Destacaria os vinhos com maior presença de Cabernet Franc (St-Emilion) e os das áreas mais argilosas do Médoc, que foram capazes de oferecer um mínimo de hidratação extra para suas videiras, em detrimento das áreas mais arenosas da região.

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