Os 10 termos mais "irritantes" e mal utilizados do mundo do vinho – 2ª parte

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Completando a lista dos 10 termos mais “irritantes” do mundo do vinho, apresento a seguir os 4 termos restantes (lembro que esta lista está longe de ser definitiva…). Palavras que usadas exaustivamente e, muitas vezes, utilizados de modo forçado ou abusivo, acabam por desvirtuar seu verdadeiro sentido… 
Boutique
Não, espere, não me diga… Também é feito à mão? Pensei que sim. Não é que devamos rejeitar o ethos de uma abordagem artesanal de um vinho (pelo contrário), mas transformar isso numa alcunha de “boutique”, como uma loja exclusiva de roupas, é o mesmo que chamar de “bistrot” (na acepção original de restaurante pequeno e simples) um lugar que serve um prato principal de R$100.

“Boutique” desperta uma sensação irritante de que se está prestes a pagar um “prêmio” pela pretensa qualidade e exclusividade de um vinho que não necessariamente as tem. Quão grande afinal é a produção de um vinho de “boutique”? 2.000 garrafas? 2.000 caixas? Não há nada de errado em ser uma vinícola “boutique”, mas para que olha de fora, pode parecer que essa é uma descrição falsa até que você mesmo se convença do contrário.

Vinhas Velhas (Old Vines/Vieilles Vignes/Viñas Viejas)
A descrição adjetiva de um vinhedo como de  “vinhas velhas” pode sugerir um retrato maravilhosamente romântico ou qualitativo, mas as vinhas velhas de uma propriedade também podem ser relegadas a um segundo plano e destinadas para vinhos secundários também. Sem uma definição clara de lugar, como as famosas vinhas velhas de Shiraz do Barossa Valley (Austrália) ou Zinfandel (Califórnia), onde ainda é possível encontrar vinhas plantadas no século XIX utilizadas na produção dos melhores vinhos, a descrição “vinhas velhas” pode não trazer nada de especial para um vinho.

De acordo com o Guinness Book of Records, a videira mais antiga ainda produzindo uvas é uma videira de Žametovka, uma variedade tinta local de Maribor, na Eslovênia, que tem registros confiáveis que a remetem ao século XVII. A cada ano, algo entre 35 e 55 kg de uvas são colhidas para elaborar pequenas garrafas de um vinho dado de presente cerimonial para personalidades como Bill Clinton, o (ex) Papa Bento XVI e Arnold Schwarzenegger.

Vinhos de 100 pontos
Esqueça a discussão sobre o melhor sistema de escala de notas, a importância de ler uma nota de degustação ou da sabedoria em aplicar uma avaliação tão definitiva para uma questão tão subjetiva quanto determinar quanto “vale” numericamente um vinho. Não há nada mais implausível e, de certo modo, deprimente sobre um vinho do que lhe atribuir 100 pontos!

Por que o vinho é a única coisa a ser classificada desta maneira? Nenhum crítico sonharia em  atribuir 100 pontos para uma música ou obra de arte. Mais importante ainda, só porque um amigo diz Jane Austen representa o ápice da literatura inglesa, isso não garante que você vá apreciar qualquer um de seus romances.

Mesmo que você aceite que as pontuações, quando combinadas com uma compreensão do paladar de um crítico específico têm um papel útil a desempenhar, certamente há algo bastante desanimador sobre o que está sendo dito, diante de sua própria experiência diante de um vinho qualquer. Certamente não é justo impor um fardo tão pesado sobre os pobres vinhos. E se você não estiver realmente com vontade de beber um Bordeaux naquela noite? Ou se ele ainda precisa de mais 20 anos de guarda? E se você achar que, secretamente, um bom Cru do Beaujolais iria muito bem com a comida da ocasião?

Na verdade, é difícil ver os vinhos de 100 pontos como algo mais que uma “muleta” para os egos dos ricos incapazes de ter um pensamento independente sobre o vinho que estão bebendo.

Premium

Essa é a “campeã das campeãs” entre as palavras mais (ab)usadas no mundo do vinho. Dentre todas que surgiram nos últimos anos, “premium” (sem mencionar seus irmãos inflacionados: “super-premium” e “ultra-premium”) tem a “honra” de ser uma das mais irritantemente prolíficas.

É possivel rastrear a origem moderna do uso do termo: a gigante de bebidas Pernod Ricard. No entanto, ao contrário do que vemos por aí, ela cunhou a expressão para qualificar com clareza as bebidas alcoólicas que estavam dentro do “Índice 120”, ou seja, 20% acima do preço médio de sua categoria no mercado de varejo. Por exemplo, poderíamos dizer que um vinho de mais de R$60 no supermercado seria “premium” se fosse enquadrado na mesma categoria de vinhos cujo preço médio fosse de R$50. Ao que parece, o uso atual é bem diferente do sentido original a que foi proposto…

Enfim, esse conjunto de palavras revela um pouco da complexa tarefa de descrever atributos que podem variar imensamente, seja pelo nível de qualidade ou origem, seja pela distinta capacidade de percepção dos seres humanos. É, definitivamente, uma tarefa inglória falar sobre vinhos, não acha?

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