Painel de Degustação: Shiraz, só mesmo na Austrália!

Data

Da esquerda para a direita, de cima para baixo, minha ordem de preferência…
Parafraseando um ditado local da culinária do Espírito Santo, “Moqueca é capixaba, o resto é peixada!”, acho que podemos dizer o mesmo da Shiraz na Austrália: o resto é Syrah! Como vinho 100% varietal, acredito que a Shiraz encontrou nesse longínquo pais continente, uma identidade bastante particular que a distingue de sua pátria mãe, o Rhône, no sudoeste da França, onde a casta originalmente é grafada com Syrah.
Para essa degustação, foram reunidos livremente seis rótulos 100% Shiraz, cujas safras variaram entre 1994 e 2009, sendo quatro deles vindos do Barossa Valley e outros dois do McLaren Vale e Clare Valley, respectivamente. Ao contrário do que eu esperava, o grande destaque não foi um dos famosos vinhos de Barossa, mas sim um elegante vinho do McLaren Vale, o  Mitolo Savitar 2006. 
Uma questão importante a ser observada nestes vinhos é a forma como cada um deles se relacionou com o carvalho, onde pudemos encontrar desde o predomínio de barricas francesas ou americanas, até o uso absolutamente equilibrado de ambas em alguns vinhos.
Mitolo Savitar Shiraz 2006 – McLaren Vale (Casa Flora/Porto a Porto)
100% Shiraz – 17 meses em barricas de carvalho (80% francês, 20% americano)
Como já mencionei, o mais elegante e refinado vinho do painel, ótima complexidade gustativa, taninos gulosos, nada enjoativos e acidez sob medida. Aromas inebriantes de ameixas pretas, alcaçuz, chocolate amargo com uma pitada herbácea. Grande vinho!
Torbreck The Factor Shiraz 2005 (Grand Cru)
100% Shiraz de vinhas velhas amadurecidas em barricas novas e usadas de carvalho francês
Se considerarmos apenas a pureza e a riqueza das frutas, o The Factor seria facilmente eleito o melhor do painel. Com sua cor rubi escura, quase impenetrável e muito densa, exibiu aromas de frutas negras silvestres, pimenta do reino, azeitonas pretas, café e poderosas notas defumadas. Na boca, toda sua profundidade e densidade vieram à tona, com taninos volumosos, densos e sedosos, com uma acidez que lutava ferozmente para conter toda essa exuberância e uma perfeita integração com a madeira. Apesar de ser um vinho um tanto “over” de tudo, não se mostrou nada cansativo ou enjoativo, sempre convidando para mais um gole. Excepcional!
Elderton Command Shiraz 2005 (Expand)
100% Shiraz – 34 meses em barricas de carvalho americano (majoritário) e francês
Poderia ser descrito à semelhança do vinho anterior, reforçando apenas o caráter mais marcante da madeira, com notas abaunilhadas bem evidentes, mesmo passados oito anos de sua elaboração. No mesmo nível do The Factor, perdendo um pouco na complexidade aromática oferecida por ele. Um clássico que nunca me decepcionou, desde que você aprecie seu estilo.  
Glaetzer Amon-Ra Shiraz 2009 (Grand Cru)
100% Shiraz de vinhas velhas – 16 meses em barricas de carvalho (90% francesas)
Mais um poderoso vinho de Barossa elaborado nas famosas vinhas velhas do vale. Com seu visual quase negro e opaco, exibiu aromas intensos de geléia de frutas negras maduras, alcaçuz, baunilha e chocolate, todos expressivos mas ainda sem muita definição. No paladar, sua energia da juventude se expressa muito bem, com taninos muito potentes e boa acidez. O uso de carvalho francês conferiu-lhe uma certa elegância, evitando que parecesse pesado demais. Aliás, esse parece ser um fator chave para todos esses vinhos: equilibrar corretamente toda essa fruta concentrada, com taninos quase doces e alto teor de álcool, sem deixar que as doses acumuladas do vinho pareçam enjoativas. Mesmo bastante jovem ainda, o Amon-Ra se saiu muitíssimo bem diante dos demais vinhos.

Jim Barry The Armagh Shiraz 1994 (KMM)
100% Shiraz – 16 meses em barricas de carvalho francês e americano
Curiosamente, já havia degustado esse mesmo vinho dois antes e as impressões foram um tanto diversas. Essa garrafa mostrou-se mais viva, parecendo ter evoluído melhor, com mais expressão de fruta (mesmo beirando os 20 anos de idade), exibindo taninos bem polidos, boa acidez e traços quase imperceptíveis de madeira. Um belo exemplar para estabelecer um paralelo com os vinhos até 15 anos mais jovens como o Amon Rá e o Bishop.  

Glaetzer Bishop Shiraz 2009 (Grand Cru)
100% Shiraz (mix de vinhas com 35 e 120 anos) – 14 meses em barricas de carvalho (90% francês), 30% novas
Certamente o mais simples, mas nem por isso menos interessante dos vinhos do painel, já que busca na mescla de vinhas jovens e velhas, um equilíbrio entre o frescor e a concentração/estrutura de ambas, conseguindo bastante sucesso. Ele acabou prestando-se para a difícil missão de ser um ponto de referência inicial para os vinhos australianos feitos com a casta Shiraz  e aqueles que estão no ápice dessa cadeia produtiva. Um vinho com a cara da modernidade vinícola australiana, redondíssimo, fácil de beber e com a riqueza de aromas e sabores que fez a fama desses vinhos em todo mundo.
Existe bastante espaço para contestar o que eu vou dizer, mas depois dos EUA, com seus grandes CS (habitualmente amadeirados demais para meu paladar e que ainda tentam ser como um “Bordeaux”), na minha avaliação, quem desenvolveu e alcançou um alto nível de excelência na produção de vinhos varietais com uma personalidade própria, foi a Austrália com a Shiraz. Se fizermos uma rápida análise comparativa de outras varietais como a Malbec (Argentina), a Carmenère (Chile) ou a Pinotage (África do Sul), elas ainda se situam alguns passos atrás neste aspecto qualitativo geral.
Fazia um bom tempo que eu não bebia tantos vinhos australianos de Shiraz juntos, mas posso afirmar que, em linhas gerais, eles são uma delícia!
  

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