Degustação de vinhos "mortos-vivos": descubra quem retornou das cinzas…

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Olhando para o nível do vinho nas garrafas você apostaria em quais poderiam estar vivos? 
Como já havia postado dias atrás, ontem reuni um grupo de enófilos no restaurante Aleixo para, finalmente abrir as garrafas de vinhos “mortos-vivos”, mal conservadas por um período indeterminado de tempo, mas que poderiam ainda oferecer um “sopro de vida”. 
Baseado no aspecto das rolhas, cápsulas e no nível de vinho dentro das garrafas, o prognóstico inicial sugeria que dois vinhos ainda poderiam estar bons e os demais, irremediavelmente perdidos. Bem, no mundo dos vinhos, as coisas nem sempre são o que parecem ser…
Depois de muito cuidado para extrair as rolhas extremamente úmidas e quebradiças, cercado de olhares ansiosos, cheirei rapidamente o interior das garrafas para tentar observar aromas desagradáveis, onde apenas dois aparentavam estar oxidados.
Como sempre devemos fazer com vinhos frágeis assim, o decanter realmente funcionou como tal, recebendo delicadamente o conteúdo decantado de cada garrafa (mantidas de pé há uma semana), minutos antes do serviço, evitando que o contato com o ar acabasse com o resto de suas forças.
Optei por servir primeiro os vinhos que, a julgar pelas aparências, estariam em piores condições e, de cara,  veio uma ótima surpresa: o Château Cheval Blanc 1976, vinho com o nível mais baixo, estava VIVO!
Cheval Blanc 1976, um inesperada volta à vida…
Cor tipica de um clarete uns vinte anos mais velho, com aromas delicados de couro, madeira molhada, chá e um sutil toque de “farmácia”. Paladar fino e com discretíssima acidez. Depois de vinte minutos na taça, ainda oferecia sua elegância e incrível “vontade de viver”. A surpresa positiva da noite e meu vinho predileto!
Château Pape-Clement 1957, mais um sobrevivente…
Outro vinho que nos surpreendeu (e positivamente…), mesmo com nível bastante baixo e rolha nitidamente vazada, garantiu em seu último suspiro um pouco de sua essência de 56 anos de vida em garrafa. Cor rubi, inesperadamente escura, com aromas de café, folhas secas e aquele mesmo traço de “fármacia” observado no Cheval. Na boca, apesar de estar ainda agradável, com taninos finos e acidez em boa forma, em poucos minutos começou a se degradar. Apesar disso, deixou-nos uma ótima impressão geral.
Château Bel Air 1983, quase ressuscitou…
A sorte começou a acabar… Apesar de alguns enófilos “necrófilos” insistirem em que ele ainda estava potável, em minha percepção ele já estava do “outro lado”, com aquele típico aroma de verniz queimado e excessiva acidez no paladar. Era o mais jovem da turma…
Château Margaux 1976, com sua garrafa em péssimo estado, infelizmente, estava MORTO!
Château Mouton-Rothschild 1976? Acho que não…
Aqui estava a maior surpresa da noite: um Mouton “falso”! Inicialmente, com um nível de vinho bastante promissor, esperava encontrá-lo ainda com vida, mas alguém pregou uma peça com essa garrafa… Vejam a série de sinais sobre a falsificação: a cápsula estava sem a “moeda”, ou seja, sua parte superior, onde normalmente está escrito o nome do vinho; a rolha estava intacta, e ao sacá-la, a surpreendente rolha de um “Escudo Rojo”??? E para finalizar, o rótulo se soltou sozinho, logo após o serviço… Acho que não preciso dizer mais nada! Enfim, o aroma de “plástico novo” daquelas bolas gigantes usadas por crianças, arrematou as suspeitas iniciais…
Vega Sicilia “Unico” 1960, um grande vinho que honrou minhas melhores expectativas!
No vinho, a “última impressão” é a que fica! Deixei esta garrafa para o fim, na esperança de que estivesse em melhores condições que as anteriores e, para minha satisfação, ela correspondeu às expectativas! Cor vermelho vivo e brilhante, denotando um vinho cheio de saúde e frescor. Aromas intensos de terra úmida, couro, frutas secas e notas de violeta. Paladar rico, com taninos maduros e ainda cheios de vigor, acidez perfeita e um final de boca longo e refinado. Do alto de seus 53 anos, esse vinho honrou com muita classe a tradição dos “Unicos” da Vega Sicilia.
Depois de tantos “mortos” e “vivos”, consideramos que o Cheval Blanc 1976 e o Vega Sicilia 1960 mereceram um justo empate, cada qual representando a força de seu terroir e justificando a fama de seus rótulos, produzindo vinhos capazes de entusiasmar qualquer enófilo mesmo quando sua conservação não foi a ideal. Uma grande noite que não será esquecida…

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